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A Vinitaly e os desafios do distanciamento social

O salão internacional do vinho e dos destilados fica para abril de 2021 - Foto: Divulgação /Grupo Veronafiere

Por Evandro Fontana, jornalista

Os vinhos italianos estão entre os mais desejados do mundo. E não é de hoje. A Península Itálica, entre o Adriático e o Mediterrâneo, já produzia vinhos muito antes dos romanos conquistarem boa parte do mundo antigo. A atual Toscana, na região Central, era habitada pelos etruscos, um dos povos precursores da produção vinícola na Europa. As ânforas – vasos feitos de argila – já eram usadas para estocar o líquido e distribuí-lo entre os pequenos vilarejos sobre as colinas, há mais de três mil anos. Muitos destes lugares guardam vestígios até os dias atuais e dão lugar à moderna produção do vinho Chianti, um dos mais apreciados tintos em todo o planeta. Nesta região também está localizada a terra do não menos famoso Brunello di Montalcino.

Podemos afirmar que em todas as regiões italianas existem vinhos de classe mundial. No Norte, a Região do Piemonte é famosa pelos seus tintos encorpados Barolo e Barbaresco. No Vêneto, terra da origem da maior parte dos imigrantes que colonizaram o Rio Grande do Sul, estão as produções do Valpolicella, do Amarone e do Prosecco. Na Lombardia, os jovens espumantes Franciacorta e na Apúlia, ao Sul, o antigo Primitivo da Mandúria.

No Vêneto está localizada a sede da Veronafiere, maior e mais antiga realizadora de feiras profissionais da Itália e a segunda maior em volume de negócios da Europa. Na mítica cidade de Verona, terra de Romeu e Julieta, localiza-se um dos mais emblemáticos espaços de realização de feiras do mundo, que recebe 1,2 milhão de visitantes por ano. Ali, em 1898, começou a ser realizada a Fiera Cavalli (Feira dos Cavalos) que acontece anualmente até os dias de hoje e com enorme sucesso. Neste espaço ocorrem mais de 50 feiras. São exposições dos mais diversos setores, tais como mármore, granito e bicicletas, por exemplo. Mas a de maior destaque é a feira de vinhos – Vinitaly – que lota os pavilhões, enche hotéis e restaurantes e invade toda cidade de Verona.

A cultura do vinho

É nos pavilhões de mais de 150 mil metros quadrados da Veronafiere, empresa público-privada, que acontece a maior feira de vinhos da Itália e uma das mais visitadas do mundo. A Vinitaly é o salão internacional do vinho e dos destilados, realizada pela primeira vez em 1967, época do renascimento do vinho italiano. Um período no qual o avanço na qualificação de enólogos e produtores culminou com o aumento significativo dos investimentos em extensas áreas de produção de uvas. Estes fatos, produção e o surgimento da Vinitaly transformaram a Itália no maior produtor de vinhos do mundo, alternando-se eventualmente com a França no primeiro lugar.

Na última edição da feira, em 2019, participaram cerca de 4.600 expositores de 35 países. Em apenas quatro dias, mais de 130 mil visitantes estiveram presentes. Destes, 33 mil compradores de 143 países foram conhecer e degustar os principais lançamentos das safras anteriores e consolidar os clássicos na carteira de pedidos. A Vinitaly é um sucesso absoluto. Cerca de 95% dos estandes são comercializados para o ano seguinte logo após o término da última edição. Muitas vinícolas ficam na fila de espera para conseguir um espaço. Na cidade de Verona, acontece paralelamente a Vinitaly In the City, para conectar enófilos com os pontos turísticos, bares e restaurantes, numa atmosfera que valoriza a cultura do vinho. Palestras e shows musicais complementam o ambiente e ajudam a valorizar o turismo e a enogastronomia.

Pandemia e seus impactos

Em 2020, pela primeira vez na história da Vinitaly, o evento teve de ser cancelado devido à pandemia de coronavírus que atingiu em cheio a Itália. Primeiro país ocidental a oficializar a transmissão sustentada do vírus, a Itália promoveu um lockdown inédito. Cerca de 60 milhões de pessoas foram confinadas em suas casas em isolamento social. Um silêncio devastador para famílias e para a economia italiana. A decisão de cancelar a Vinitaly 2020 foi precedida por um adiamento de abril para o mês de junho, quando ainda havia esperanças de que a Covid-19 poderia ser contida sem provocar uma situação tão grave.

No entanto, a emergência sanitária e a suspensão de voos se alastraram pelo mundo velozmente, e estes fatos acabaram por decretar o cancelamento da Vinitaly 2020. Assim, a 54ª Vinitaly será de 18 a 21 de abril de 2021, nas datas originalmente previstas para o próximo ano. Os desafios a serem enfrentados ainda estão espalhados sobre a mesa através de gráficos e prognósticos. Afinal, são embrionárias ainda as ideias de como realizar grandes eventos, com dezenas de milhares de participantes, em convívio com o coronavírus. O Grupo Veronafiere tem apostado muito na digitalização, com a utilização de aplicativos e inteligência artificial. Já antecipou, como objetivo central, que os mais de 70 eventos que organiza anualmente pelo mundo serão realizados somente em plena segurança sanitária.

A Vinitaly e o Brasil

A participação brasileira na Vinitaly ainda é bastante tímida, seja por operadores do setor, seja pelo público em geral. Primeiro, porque a vocação exportadora do Brasil neste campo se iniciou há pouco tempo, a partir de incentivos do governo do Rio Grande do Sul e do governo federal, numa estreita colaboração com os produtores vinícolas. E segundo, porque a competitividade internacional, tanto em preço quanto em qualidade, é uma meta ainda a ser alcançada apesar dos enormes passos das últimas décadas.

Uma maior aproximação da Itália com o Brasil no setor vitivinícola se iniciou em 2018, quando foi realizada pela primeira vez, em Bento Gonçalves, a Wine South America, feira lançada internacionalmente durante a Vinitaly daquele ano, em Verona, com a presença de autoridades e produtores brasileiros. Idealizada para valorizar o vinho nacional – o Rio Grande do Sul responde por 90% da produção – a segunda edição do evento, em 2019, teve a presença de 300 marcas expositoras de 12 países e geração de aproximadamente 20 milhões de reais em negócios.

A vizinhança cultural e histórica da Itália com o Rio Grande do Sul, o acordo Europa-Mercosul – com salvaguardas para o vinho brasileiro –  e as feiras na Itália e no Brasil podem pavimentar um caminho de bons resultados para o setor vitivinícola brasileiro. Tudo vai depender de como o mundo será configurado depois da pandemia de Covid-19. Um vírus que impactou diretamente o setor de feiras e eventos, mas que pode contribuir para o surgimento de ideias criativas e inovadoras para conectar produção e consumo do setor vinícola.

Marta Sfreddo
Marta Sfreddo
Formada em Comunicação Social - Habilitação em Jornalismo - pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), especializada em Comunicação Organizacional pela Universidade de Caxias do Sul e licenciada em Letras pela UCS.

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