Califórnia Brasileira: parceria FNM e Agrale coloca RS no ecossistema da mobilidade elétrica

Pinterest LinkedIn Tumblr +

“Vamos mudar as regras, evoluir de imediato para reduzir o uso do diesel em transportes no Brasil, a começar pelo estado do Rio Grande do Sul, que já foi para um novo patamar tecnológico com a logística e a mobilidade elétrica e silenciosa. O estado vai virar a “Califórnia Brasileira” e isso não é mais conversa de futuro, essa é a nossa realidade de agora”. A afirmação, que não esconde o entusiasmo, vem da diretoria da FNM, que recentemente firmou parceria com a Agrale, de Caxias do Sul (RS), para a produção de caminhões elétricos. Vamos conhecer melhor esta história?

“Não vendemos caminhões, mas soluções logísticas”

A FNM (Fábrica Nacional de Mobilidades) é uma startup de veículos elétricos e conectados, e seus investidores estão à frente da produção dos caminhões de 18 toneladas e de outros veículos. De acordo com a direção da empresa, o modelo de negócios da FNM alterou o tradicional modo de operação das montadoras de veículos.  “Não vendemos caminhões, mas sim soluções logísticas com performance e TCO positivo. Para isso, realizamos um anteprojeto para cada cliente, e nossos caminhões podem ter autonomia de até 700 quilômetros. Nosso modelo de negócio é baseado em contratos de pré-venda, com pré-pagamento e planilha aberta, acrescenta Ricardo Machado, CEO e fundador da Obvio ! + FNM Veículos Elétricos.

Quem pensa que a meta de transformar o Rio Grande do Sul na Califórnia Brasileira é ousada precisa conhecer a tecnologia aplicada aos caminhões FNM e entender que as políticas de zero emissão de gases poluentes estão em cima da mesa de governos e empresas internacionais.  A inovação no setor de transportes, na busca por um mundo livre de carbono, não é mais uma opção, é uma exigência das empresas ESG (Environmental, Social and Governance).

Os veículos elétricos são um mercado em franca expansão na indústria automotiva mundial, graças a esta nova abordagem sustentável e colaborativa entre startups e empresas de tecnologias de ponta, que estão colocando o futuro no presente. Novos modelos de negócios estão provocando transformações na mobilidade em escala global, e o Brasil começa a dar mostras da decisão das empresas de utilizar de imediato esse potencial de veículos elétricos da FNM, tendo em vista que as matrizes internacionais das montadoras tradicionais não têm interesse em produzir veículos elétricos no Brasil. É inegável que as tecnologias de ponta nessa área não pertencem às montadoras, e já foi criado um novo ecossistema de mobilidade que está emergindo no País e vai impactar o mercado nacional com novidades de alta tecnologia, sustentam os empreendedores da FNM.

A história da FNM

Mas antes de falarmos sobre a FNM Elétricos, vamos falar sobre a “Fênêmê”, como era conhecida antigamente. A estatal foi criada em 1942 em Xerém, distrito industrial da cidade de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, e foi a primeira fábrica de motores de avião e de aviões do País, criada pelo presidente Getúlio Dornelles Vargas e pelo brigadeiro Antônio Guedes Muniz, em consórcio com a Wright Motors, dos Estados Unidos.

Em 1946, a Segunda Guerra Mundial já havia acabado e não houve mais demanda para os aviões Vultée e Muniz, para combate pela Força Aérea Brasileira (FAB) e pelo Correio Aéreo Nacional (CAN). A FNM mudou de perfil e começou a produzir em suas instalações tratores, bicicletas e geladeiras, até que o governo decidiu fabricar caminhões em 1949, em uma parceria com a marca italiana Isotta Fraschini. A FNM tornou-se, então, a primeira fabricante de caminhões do Brasil.

Seu primeiro produto foi o D-7.300, com motor a diesel e capacidade para 7,5 toneladas de carga. Quando a Isotta teve problemas financeiros e deixou de fornecer componentes, deu lugar à também italiana e estatal Alfa Romeo. Em 1958, foi lançado o D-11.000, um pesado que se tornou “figura fácil” nas estradas brasileiras e marcou presença nas obras de construção de Brasília, com seu jeito abrutalhado e o som grave do motor a diesel de seis cilindros.

Em 1960, a FNM lançou o automóvel JK 2000, que foi reestilizado em 1969 e renomeado como 2150. O sedã de luxo foi produzido até 1973 e tornou-se uma espécie de “sonho de consumo” dos brasileiros mais abastados, porém nunca obteve a imensa empatia que os caminhões FNM alcançaram, pois viraram sinônimo de caminhão.

Em 1968, o regime militar resolveu privatizar a FNM, que foi repassada à Alfa Romeo. Em 1977, a Alfa Romeo foi vendida à Fiat, que continuou a fabricar o caminhão pesado FNM 180 em Xerém por mais quatro anos. Depois mudou-se para Betim, em Minas Gerais, e passou a produzir caminhões com sua própria marca Fiat Diesel até 1988. “Poucas pessoas sabem dessa história, comenta Ricardo Machado.

Em 2008, a empresa Obvio ! – também carioca e do ramo de mobilidade elétrica – adquiriu o direito de uso da marca e o logotipo da FNM, com o objetivo de fabricar caminhões elétricos, alterando o nome para Fábrica Nacional de Mobilidade. A FNM Elétricos passa então a mirar o mercado de soluções em mobilidade de alta tecnologia . A Obvio ! já havia realizado projetos de engenharia e de tecnologia com a Lotus Engineering, da Inglaterra, que fabricou os primeiros veículos elétricos da Tesla, e iniciou os projetos de caminhões e ônibus com zero emissões, com sua linha de montagem sendo localizada dentro da “Fábrica 2” da Agrale.

A expertise da Agrale

E quando Caxias do Sul entra nessa história? Começa com um paralelo interessante a respeito dos nomes dos estados e cidades:  Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul e as cidades de Duque de Caxias e de Caxias do Sul. Com isso, o Rio Grande do Sul passou a fazer parte do ecossistema de veículos elétricos em 2019, quando a Agrale decidiu unir a sua experiência na produção de caminhões com as tecnologias de mobilidade elétrica da FNM.

Naquele ano, os irmãos e empresários gaúchos Zeca Martins e Alberto Martins – sócios da holding proprietária da FNM – atraíram a unidade industrial da empresa para Caxias do Sul, onde a ideia vitoriosa foi  firmar um contrato de parceria e desenvolvimento com a Agrale S.A. – a única montadora de veículos 100% brasileira – fundada em 1962 por Francisco Stédile e atualmente presidida por Hugo Záttera, hoje com três plantas fabris, uma delas com capacidade para produzir mais de 200 caminhões/dia.

É na “Fábrica 2” que serão produzidos os caminhões elétricos modelos FNM 832, com PBT de 13 toneladas e o FNM 833, com PBT de 18 toneladas, com até 700 quilômetros de autonomia. Com design retrô, os veículos terão motores e sistemas de alta tecnologia da europeia Danfoss, baterias da norte-americana Octillion e baús diferenciados fabricados pela Randon.

FNM e Agrale

Os primeiros caminhões da nova marca já têm colocação garantida. Serão fornecidos mil veículos elétricos para a Ambev, que em janeiro deste ano anunciou um programa para tornar a gestão de suas operações de logística mais sustentável até 2025, por meio do selo “carbono zero”. A empresa está com 21 mil encomendas de novos caminhões em seu “pipeline”.

Depois de exaustivas experimentações dentro da “Fábrica 1” da Agrale, com a supervisão da equipe técnica e tecnológica da FNM e com a participação dos técnicos dos principais fornecedores internacionais de componentes, os caminhões já rodam em testes nas ruas de Caxias do Sul. De acordo com Ricardo Machado, os caminhões “Smart Trucks” de 18 toneladas já estão prontos, com a definição de autonomia para rodar 100 quilômetros por dia, que foi a necessidade definida para as operações diárias da AmBev no Rio de Janeiro.

Além dos caminhões elétricos, a FNM Elétricos também desenvolve caminhões de 9 toneladas e vans elétricas de 3,5 e 6 toneladas, além do sistema “RePower” para a transformação de veículos de diesel para elétricos.

O foco é produzir modelos para transporte de cargas e de passageiros que proporcionem uma logística sem poluentes, silenciosa, segura, sustentável e sem emissão de carbono. O meio ambiente e a economia agradecem!

Texto: Marta Guerra Sfreddo

 

Compartilhar.

Sobre o Autor

Formada em Comunicação Social - Habilitação em Jornalismo - pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), especializada em Comunicação Organizacional pela Universidade de Caxias do Sul e licenciada em Letras pela UCS.

2 Comentários

  1. Fantastico, incrível ver duas empresas nacionais, fazendo veículos nacionais, só esse design do caminhão que parece meio ultrapassado, eu entendo o estilo “retro” que foi escolhido mas o interior não me parece de um caminhão “smart”, observem os interiores do caminhão da tesla, claro esse pode ser luxuoso de mais pro mercado atual, mas comparem com o interior do novo vw meteoro.

    Enfim já é um belo de um passo no caminho certo e espero que essa parceria vá longe, só não quero que acabe como alguns modelos da Agrale, que só são vendidos para o governo.

  2. Fazem muita propaganda de “Carbono Zero” porque ignoram o Gás Carbônico produzido para obtenção da Energia Elétrica que será utilizada para carregar as baterias, sem falar da emissão para fabricação dos veículos e da própria bateria. Carbono Zero uma ova, aliás se não houver mais (+) produção de Gás Carbônico, o mundo morrerá de fome. Sem CO2 não existe fotossíntese para o crescimento das plantas.

Deixe uma resposta