Longevidade e envelhecimento populacional: estamos preparados?

* Por Patrícia Klahr

Estamos preparados para o aumento da expectativa de vida, envelhecimento populacional e a transição demográfica da pirâmide etária do país? Não, não estamos! De acordo com o dicionário Michaelis, longevidade é a “duração mais longa que o normal da vida de uma pessoa”. No entanto, essa definição simplista não captura a complexidade e a profundidade do que significa viver por muitos anos. Ela não se refere apenas ao tempo vivido, mas também à qualidade de vida durante esse tempo. Afinal, não basta viver por muitos anos, é essencial viver bem e sentir-se produtivo.

O Brasil está envelhecendo rapidamente. De acordo com projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o grupo com mais de 65 anos representará mais de um quarto da população em 2060. Esse aumento é atribuído à maior expectativa de vida e à queda da taxa de natalidade, o que traz uma série de desafios e oportunidades que precisam ser endereçados com políticas públicas eficazes e uma visão estratégica de longo prazo.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define o envelhecimento saudável como o “processo de desenvolvimento e manutenção da capacidade funcional que permite o bem-estar na idade avançada”. Isso implica que essa fase da vida, embora inevitável, não precisa ser marcada por declínios debilitantes, mas pode ser acompanhada de bem-estar e atividades que continuem enriquecendo-a.

Mas a mudança na pirâmide etária terá impactos profundos na economia e no mercado de trabalho. Com um número crescente de idosos e uma redução do número de pessoas jovens, haverá uma maior pressão sobre os sistemas de previdência e saúde. Como, por exemplo, o aumento de doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) e outras condições associadas à maior idade. Nesse contexto, a Secretaria do Tesouro Nacional prevê um gasto adicional de R$ 50 bilhões em saúde até 2027.

O perfil do idoso também está mudando. Hoje, são pessoas mais ativas, conectadas e desejam continuar contribuindo com a sociedade. Isso gera a necessidade de criar espaços e oportunidades que incentivem a participação dos maiores de 60 anos no mercado de trabalho e na comunidade, valorizando sua experiência e conhecimento. Além disso, a longevidade precisa ser acompanhada de investimentos em saúde que promovam a prevenção e o gerenciamento eficaz de soluções que visem a melhoria da qualidade de vida.

O envelhecimento da população tem implicações também para a educação. Com menos jovens nas escolas, haverá uma menor demanda por infraestrutura educacional básica e fundamental. No entanto, aqueles que estão em formação de nível superior, incluindo os futuros profissionais de saúde, já necessitam desenvolver competências que os habilitem a cuidar, promover o bem-estar, manter a qualidade de vida e atuar na prevenção de doenças. Ou seja, eles devem estar preparados para usar os novos recursos terapêuticos, tecnológicos e as inovações no atendimento integral dessa população “envelhecida”.

Para isso, é essencial que as instituições de ensino promovam capacitações e debates sobre a mudança da pirâmide etária do país e do mundo, tornando todos os envolvidos na área da saúde conscientes sobre o impacto de viver por maior tempo e reforçando a utilização de inteligência emocional, ferramentas e inovações tecnológicas e conhecimento técnico profundo para adotar as melhores práticas neste novo contexto social.

Como instituição de ensino, é necessário abordar as competências e possíveis mudanças nos currículos. O ensino superior brasileiro ainda não está totalmente preparado para essa realidade. Os parâmetros regulatórios engessam as possibilidades de transformação e a sociedade ainda enfrenta estranhamento em relação às formações disruptivas. Precisamos quebrar paradigmas e barreiras para desenvolver futuros profissionais de saúde e cidadãos preparados para uma sociedade longeva.

A longevidade é um desafio que exige uma resposta integrada, multiprofissional e multifacetada. O Estado, a sociedade e cada um de nós devemos estar preparados para enfrentar as implicações desse fenômeno. Isso inclui rever as políticas públicas, investir em sistemas de saúde resilientes, promover a educação continuada e criar uma cultura que valorize e apoie o envelhecimento saudável. E isso precisa ser logo.

*Patrícia Klahr, Pró-Reitora de Ciências da Saúde no Centro Universitário Facens

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Formada em Comunicação Social - Habilitação em Jornalismo - pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), especializada em Comunicação Organizacional pela Universidade de Caxias do Sul e licenciada em Letras pela UCS.

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